Transformações no trabalho: nova NR-1, IA, redução da jornada e engajamento em queda pautam 2026

Empresas brasileiras entram em 2026 diante de três frentes que alteram a gestão de pessoas: atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), adoção crescente de inteligência artificial (IA) e o debate sobre o fim da escala 6 x 1 com possível redução da jornada semanal de 44 para 36 horas. Especialistas apontam que saúde mental, flexibilidade de modelo de trabalho e qualificação contínua são determinantes para manter produtividade e atrair talentos.
Saúde mental entra no radar da fiscalização
A nova NR-1 exige que as organizações identifiquem e administrem riscos psicossociais — estresse, sobrecarga e assédio — dentro do Programa de Gerenciamento de Riscos. A fiscalização começa em maio de 2026. O avanço ocorre em meio ao reconhecimento do burnout como doença ocupacional desde janeiro de 2025 e ao aumento de benefícios concedidos por incapacidade temporária ligados à saúde mental, que saltaram de 201 mil (2022) para 472 mil (2024).
Dados do SmartLab Trabalho Decente 2025, elaborado por Ministério Público do Trabalho e OIT, mostram que episódios depressivos representam 25,6% dos afastamentos; ansiedade, 20,9%; e depressão recorrente, 12%.
Engajamento e rotatividade em queda
Pesquisa da FGV-Eaesp com a plataforma Flash aponta que 39% dos trabalhadores brasileiros se dizem engajados em 2025, cinco pontos percentuais abaixo de 2024. Entre eles, 42% atuam em micro, pequenas e médias empresas. A desmotivação custa, em média, R$ 561 por colaborador ao ano e reduz em duas horas a produtividade diária.
No mesmo período, o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) registrou troca de emprego de 33% dos profissionais com carteira em 12 meses. Levantamento da Offerwise para a Sólides indica que metade dos funcionários de pequenos negócios deixaria o posto diante de proposta melhor.
Jornada menor em discussão
No Congresso tramita PEC que propõe cortar a carga semanal para 36 horas e extinguir a escala 6 x 1. A mudança exigiria análise do impacto operacional e, possivelmente, novas contratações. A advogada Christiani Marques, da PUC-SP, lembra que adaptação semelhante ocorreu em 1988, quando a Constituição reduziu a jornada de 48 para 44 horas.
Case do varejo: a Chilli Beans testa escala 5 x 2 em 280 de suas 1,4 mil lojas. A rede observou aumento de vendas, queda no turnover e triplicou o volume de currículos recebidos.
Presencial, remoto ou híbrido?
Gigantes como Amazon e Apple exigem retorno integral, mas consultores apontam que modelos híbridos ou remotos dependem da maturidade de gestão. A Holding SM, do Rio de Janeiro, aferiu produtividade maior no regime híbrido após monitorar indicadores de clima e desempenho.
Riscos do home office, segundo a International Stress Management Association no Brasil (ISMA-BR), incluem sensação de isolamento e “superacionamento”, quando gestores presumem disponibilidade 24 horas.
IA sai do hype e vira rotina
Levantamento TIC Empresas 2024 mostra que 29% das médias empresas já empregam IA, ante 22% em 2021. Entre pequenos negócios, a fatia é 10%. Custo elevado e percepção de baixa utilidade são obstáculos citados por 15% dos entrevistados.
A automação de processos é a aplicação mais difundida (63%). Consultores recomendam mapear fluxos antes de implementar agentes de IA que podem, por exemplo, filtrar currículos ou tirar dúvidas de funcionários 24 horas por dia.
Corrida por novas habilidades
O relatório The Future of Jobs 2023, do Fórum Econômico Mundial, estima que 44% das competências atuais terão impacto disruptivo em cinco anos. Pensamento criativo, capacidades cognitivas e alfabetização tecnológica ganham importância. Plataformas como Capacita (governo federal), Coursera, FGV, Sebrae e Senai-SP oferecem cursos rápidos de upskilling e reskilling.
Para Edney Souza, conselheiro de inovação, líderes precisam entender novas metodologias para manter a competitividade. Treinamentos básicos, inspiracionais e contínuos aumentam o bem-estar em até 32%, segundo dados da Gallup.
Empresas que conseguirem alinhar conformidade à NR-1, automação via IA e estratégias de engajamento humano tendem a chegar a 2026 mais produtivas e atrativas para os profissionais.
Com informações de revista PEGN




