Sobre A Paix

Qual o maior segredo que um homem é capaz de esconder? Sua riqueza ou sua pobreza? Uma outra família? Sua idade? O número dos sapatos? Muitas são as coisas que um homem é capaz de esconder, manter enclausuradas nas entranhas de sua alma. Mas ele jamais será capaz de esconder uma paixão.

Por mais que ele tente, não o conseguirá. Isso é fato, fato-pulo, um fato incontestável. Não só a História, mas a Filosofia, a própria fé ou a Teologia conseguem explicar, mas um homem apaixonado é capaz de lutar contra si mesmo e perder, quando tenta esconder uma paixão.

Ele revela a sua paixão, mesmo sem querer. Quando vê a mulher amada seu olhar se foca na imagem dela, não sai dela até que ela se perca na multidão, ou até que seu campo de visão seja incapaz de abrigar tão bela paisagem.

Tudo para ele faz lembrar a imagem dela, o brilho do sol, o canto dos pássaros, as estrelas. . . Tudo o faz pensar na mulher amada. Aliás, esse é um dos sintomas de um homem que está apaixonado, ele fica sensível às manifestações da natureza, passa a observar as flores, as borboletas, tudo para ele é a prova da existência do amor, embora ele insista em dizer que não está apaixonado.

Quando um homem está apaixonado, ele fica mais sensível à música, afasta-se dos amigos, quer apenas imaginar uma forma de se aproximar da coisa amada. O amador é um obcecado, tem a constante obceção em manter-se perto dela, procura saber em que disciplinas ela não tem bom rendimento, estuda-as a fim de manter-se bem na matéria a ponto de ela chegar até ele pedindo ajuda nos estudos, ou ele combina com um amigo para que esteja com ela na biblioteca, ou que ele o recomende a ela. O que ele quer é mostrar as suas habilidades para a moça.

Manda cartões, bombons, flores, recados no auto-falante da escola, nega-se a revelar que está enamorado, o amador tenta em muitos momentos esconder o seu sentimento, isso porque é o oposto da personalidade racional que ele construiu sobre si, tudo para manter a coisa amada perto dele.

Por fim há o encontro, é o momento em que ele não tem o que fazer além de revelar os seus mais profundos e ocultos sentimentos. Ele fica trêmulo, seu coração palpita a ponto de querer sair do peito. Sua voz vaga e falha, palavras travam, logo ele que fala tão bem com os amigos. . .   É, quando um homem se apaixona ele perde a noção de si mesmo, se é tolo fica sábio, se é sábio fica tolo. Quando realista, torna-se sonhador, quando sonhador, se perde em seus sonhos. Filosofa sobre as coisas mais simples que se pode imaginar. Faz coisas que nem ele mesmo imagina, torna-se caridoso, bondade passa a ser o seu segundo nome.

Ele faz de tudo pra chamar atenção da amada, veste-se melhor, tira do armário os sapatos de couro e a gravata listrada, passa a colocar a camisa para dentro da calça e a abotoar o último botão, começa a passar o uniforme, a pentear o cabelo, abandona certos amigos que derrubam a imagem de “homem sério e comprometido” que ele quer construir, isso porque alguém, certamente um filósofo, falou que ele deve se espelhar no pai da moça, esse é o homem que ele usa como referência, é o único com quem conviveu o bastante para saber como se comporta. E ela quer alguém que lhe passe a segurança eu este lhe passa.

Se for astucioso e calculista o suficiente para não desejar falhar, ele fará contatos entre seus amigos e entre as amigas dela, tudo em segredo, para que o plano não seja descoberto e o desejo de conhecimento sobre a coisa a amada não se torne espionagem, pois é assim que a moça amada enxerga o desejo constante que o amador tem e conhecer os seus hábitos e gostos.

O amador então faz contatos e descobre qual o doce preferido dela, qual a cor preferida, a música, o livro, tudo o que a fará se sentir bem se talvez ela se encontre com ele. Mas falta a última e mais importante de todas as coisas que ele tem de descobrir, e esta é o número do telefone dela, para ficar horas e horas conversando coisas que nem se imagina, cosas que ele nem pensava que ia um dia falar com alguém.

Eis então que chega a hora de se declarar implicitamente, e este é o culto da sexta-feira, conhecido nos internatos internacionalmente não como um momento de adoração a Deus, mas como o momento de lançar à mesa as cartas minuciosamente calculadas durante toda uma semana. O amador sempre chega primeiro, impaciente, caminha de um lado para o outro olha o relógio, olha para a porta, senta-se em um dos bancos detrás, isso porque ele combinara com as amigas dela que estaria com determinado tipo de roupa e penteado, fica em um ponto onde será visto indubitavelmente. As amigas e a amada se sentam a dez metros dele, uma fileira a frente, assim ele pode olhá-la sem que ela perceba, a as amiga possam dizer a ela: “aquele cara está olhando para você”.

Ao final do culto, eles vão à praça, ele fica em um ponto conversando com os amigos mais notáveis, a fim de atrair olhares, principalmente o dela, conversa quase em silêncio, ouvem-se apenas risadas das piadas que contam, piadas políticas, sobre arte, coisas assim, dando a ele uma aparência de homem culto e inteligente. Ela fica conversando com as amigas, do outro lado da praça, em um ponto onde ela possa vê-lo, sem que ele perceba os olhares.

Quando decidem ir para casa as amigas dela, junto com ela, passam por perto dele, despertam a atenção dele, a fim de que ele telefone para ela assim que chegar à sua casa. E é assim que acontece. Mas ele decide abrir parte do jogo, diz que observa-a a muito tempo, que não tem olhos para outras  moças e que não consegue ficar um só minuto sem pensar nela, e que não consegue ficar mais um dia sem pedi-la em namoro. E ela, por livre e instantânea pressão de suas amigas, aceita o pedido.

Mas a mulher nem sempre é a coisa amada, nem sempre é o objeto de desejo de um homem, nem sempre o homem é o amador, o admirador, o observador. Às vezes a mulher ama, observa, deseja, mas não é da mesma forma que o homem. Se não, a primeira parte desse trabalho trataria da mesma forma homens e mulheres, mas são seres diferentes, os homens fazem apenas uma coisa de cada vez, se estudam, não conseguem trabalhar, se trabalham não conseguem amar, se amam não conseguem estudar, mas em compensação eles fazem de cada vez uma coisa bem feita.

A mulher, por sua vez, consegue limpar a casa, preparar o almoço, cuidar das crianças, vê tevê e conversar com a amiga apelo telefone ao mesmo tempo, isso quando não inventa de dirigir e retocar a maquiagem. Isso se deve ao cérebro segmentado da mulher, graças a ele ela consegue fazer todas essas coisas ao mesmo tempo, enquanto o homem faz uma coisa de cada vez, só que bem feito.

A mulher não gosta de mostrar que está apaixonada, que sente algo por um homem, o machismo faz com que ela seja vista como atirada, oferecida, uma puta. Como não quer receber esse decepcionante título, ela mantém-se na passiva, faz com que o homem a note, e tome a iniciativa, deixa brechas para que ele se aproxime, faz com que ele olhe para ela, fica sempre em pontos onde ele pode vê-la, sempre mantendo uma distância considerável, para que ele a veja em segundo ou terceiro plano. Caso ficasse em primeiro plano, seria vista como oferecida.

Ela cria formas de chamar atenção dele, mas como? Usando uma roupa discreta, que passe uma imagem de moça direita, de moça descente. Depois usa perfumes suaves, maquia-se em tons suaves, quase despercebidos, tudo para fazer com que ele a olhe, e não para que ela olhe para ele. Então ela, na escola, senta-se em um banco junto à porta da sala, as salas convergem num pátio, onde todos ficam durante o intervalo. Ela então conversa com as amigas de forma descontraída, na conversa predomina coisas que a fazem sentir-se bem, de forma que haja sempre um sorriso no rosto e que haja sempre um brilho singular no olhar.

Até aí ninguém, além dela sabe dessa paixão. Então ela decide comentar com as amigas, tudo dela remete a ele, ela fala dele, costuma dizer: “Ah se esse professor de matemática fosse igual a ele”. Tudo o que ela fala tem o nome dele no meio. O fichário, a agenda e o diário passam a ganhas nas folhas corações com o nome dos dois juntos. As amigas então descobrem que ela está apaixonada e tratam de criar a rede de contatos que em dois dias aproximarão a amadora da coisa amada. É engraçado como as mulheres conseguem fazer essas coisas, bastam alguns telefonemas para o outro lado da praça.

Elas telefonam para um ou dois homens amigos do amado, marcam encontros e coletam informações. Um círculo de casais se forma, mas apenas um se consolidará, ao menos que mais alguém consiga um par duradouro. Conversam, e se dispersam, a amadora então encontra-se com a coisa amada. Uma conversa e um segundo encontro é marcado.

Mas, se a moça for esperta esse segundo encontro é desmarcado por uma dor de cabeça ou uma cólica menstrual. Entretanto, nem tudo está perdido, pois não há no internato alguém que seja bom o suficiente em todas as disciplinas, alguém que seja auto-suficiente em conhecimento. A mocinha então deve procurar alguém que a ajude com as matérias passadas em Matemática, Química, Física, Biologia ou História. Claro que esse alguém não é o filósofo, pois ele não é o objeto de desejo da mocinha, ela deseja o nerd, que entende dessas disciplinas, mas não como o filósofo, que busca de fato entender, o nerd decora as fórmulas e macetes, sabe como nem o professor de Matemática sabe fazer o que fazem os que vivem entre os números, ir do nada a lugar nenhum.

Ela então telefona para um amigo dele e pede ajuda na disciplina, claro que ela sabe que esse amigo não é bom naquela disciplina, ele não detém os conhecimentos necessários para torná-lo apto a lecionar para outra pessoa. Mas o que fez ela telefonar para ele? Retorna-se a um dos parágrafos anteriores, onde se explana a situação da mocinha, ela não pode ir até o amado porque pode parecer que está sendo oferecida, que está se oferecendo para ele. Então ele tem que fazer parecer ser algo ocorrido ao acaso.

Esse amigo não desconfia de nada e então, sendo tolo o suficiente para não entender o que se passa e tirar proveito da situação (pois também é nerd), indica o ser amado da mocinha, pois ele vai ajudá-la de forma melhor que ele. Se este fosse um filósofo, marcaria uma aula para dois ou três dias depois, pois tem uma agenda carregada, então esforçar-se-ia para aprender aquele conteúdo das aulas, e depois ele faria com que pudesse dominar o conteúdo e então iria ele mesmo dar as aulas e ganhar a mocinha do amigo, que ta o momento não sabe de nada.

O nerd é o, perdoe a má palavra, lerdo nato (nada a ver com a semelhança fonética das palavras, nerd = dedicado e lerdo = retardado), o nerd é um ser desligado do mundo real e gosta das coisas sendo feitas segundo a lei de Newton, segundo as leis de sabe lá qual físico ou químico que a criou. Então ele faz tudo da maneira mais certa possível, ele transfere a ligação telefônica para o apartamento do amigo nerd, este de nada sabe, não sabe da sua popularidade como aspirante a professor, tampouco da paixão que a mocinha tem por ele. Para consumar a preliminar da paixão, os dois marcam para estudar numa tarde qualquer da semana na biblioteca.

O nerd chega antes, com seu laptop, calculadora HP 12 C, uma pasta com lápis, canetas de cores variadas, compasso, esquadro, transferidor e régua, sem falar no papel liso e no papel quadriculado, estes são seus instrumentos de trabalho. Então ele vai até a estande dos livros que utilizará com a mocinha e pega o volume mais fino que tiver, em compensação é um livro que trata exclusivamente daquele tema, isso mostra-o como conhecedor de livros.

A mocinha chega á biblioteca e encontra-o em um ponto de onde ela o vê sem dificuldades, cumprimenta-o e senta-se de frente a ele, ela então explica o que não entendeu. O nerd então lhe dá um show de conhecimento, arrotando sobre o papel através da ponta do lápis os gráficos e planos cartesianos, os cálculos quilométricos sobre a folha de papel liso, as teclas da calculadora são usadas como a de um datilógrafo profissional em se computador ou máquina de escrever. Depois da exibição ele pergunta se ela entendeu? A resposta negativa é proferida apenas para que ele explique tudo outra vez e ele possa então ouvir aquela voz que tanto lhe faz bem aos ouvidos.

Ela então vai para o quarto, telefona para ele e marca outras aulas, as conversas assim se seguem até que ele a pede em namoro, namoro este que durará até a entrega do boletim, quando ela saberá que está aprovada e que não precisa mais dos conhecimentos do nerd. Mas. . . Caso o amigo que atendesse ao telefone fosse um filósofo? A história da mocinha apaixonada teria um final diferente? Ele roubaria a paixão da mocinha do nerd e a apresentaria aos amigos na noite de sexta-feira depois do culto como sua namorada? A resposta. . . a resposta virá nos próximos parágrafos.

Se por um incrível acaso do destino o nerd tenha um amigo filósofo, e este filósofo seja um dos que estiveram no encontro forjado com casais de amigos, e caso tenha sido esse o amigo que atendeu ao telefone, ele pediria um prazo de dois dias, aprenderia o conteúdo e marcaria um encontro em uma noite qualquer da semana, que não a que ele se reunia com seus amigos, é sabido que grupos de filósofos se reúnem regularmente para debates.

O filósofo é completamente o oposto de Nerd, escolhe um livro grosso, o que dá a idéia de gosto pela leitura, e também um gosto generalizado. Fica em um ponto escondido da biblioteca, a mocinha tem de procurá-lo, ela o encontra lendo uma outra coisa que não Matemática. Então ela vai até ele, que a recebe dando-lhe um bombom de chocolate. Ela aceita e se senta de frente a ele.

Entra em cena o lado malandro do filósofo, ele é atencioso, fala olhando nos olhos dela, sempre elogiando algum detalhe do rosto ou do cabelo dela, inclina-se em sua direção para falar, provoca brilho no olhar, a foz grave e cadenciada dos debates dá lugar a uma voz doce e calma. Entre uma informação e outra ele faz alguma brincadeira com a mocinha, conta uma piada. Jamais age como o nerd, que mostra que conhece, ele joga o problema para que ela resolva, força ela a pensar na solução ideal para o problema, cria problemas em que a resposta seja 1 banana, algo concreto.

Como é noite ela sai da biblioteca junto com ela, se sentam em algum lugar a fim de olharem para as estrelas. Como a mocinha é religiosa ele banca o pastor e diz o quão perfeito é Deus, compara a beleza da moça, o brilho dos olhos dela com o brilho das estrelas, sempre subestimando o céu.

Eis que eles passam por uma alameda, onde as árvores filtram a luz que vem dos postes, então ele pede a ela que pare em um ponto onde um feixe de luz incide sobre o rosto dela, pede a ela que fique parada e dê um sorriso, ele nada vê além do rosto dela, então ele diz que poderia ficar ali parado o resto da vida, pois consegue ver o quão perfeita é a natureza, o quão belo é o rosto dela.

Caminham juntos e ao deixá-la na porta da casa dela,  ele diz que deseja que o relógio pare no momento em que se abraçam para que aquele momento se eternize e que é o que ele mais quer. A essa altura ele já tem o telefone dela, e ele telefona assim que chega em casa, ela já pensa nele, ele marca então um encontro para uma tarde qualquer da semana. Para que tomem um sorvete, geralmente logo depois da hora de estudo.

Ele então a espera com uma roupa descontraída, camisa estampada, colarinho dobrado, o botão de cima da camisa aberto, a calça jeans e sandálias, toma o sorvete e o diálogo se assemelha ao da biblioteca, ele fala dos outros rapazes do campus com ar de desdém, chega a por em xeque a masculinidade deles tendo em vista a beleza da mocinha sem namorado, desdenha também de outras garotas, fazendo-a sentir-se a mais bela do campus.

Terminado o sorvete vão caminhando, ele faz brincadeiras com ela, algo do tipo confiscar o prendedor de cabelo, ou as chaves dela, fazendo-a rir, isso é importante, pois a descontração que ele causa nela é um elemento de aproximação. Esse elemento é o que vai fazê-la sentir-se atraída por ele. Depois de conversar sobre coisas que jamais conversaria com seus amigos filósofos, eles se sentam em um lugar na praça onde sejam somente os dois.

Continuarão a conversar até que chegue a hora de se preparar para o culto do Pôr-do-sol. Neste culto, moças e rapazes se separam. Então eles se despedem com a promessa de se verem á noite. Mas o que acontecerá? O que acontecerá é que o filósofo, no seio de sua malandragem honesta, pedirá a mocinha em namoro, então ela, sem escolha ou outro desejo, aceitará o pedido.

Isso mostra que a paixão do mocinho é determinada pelas sensações químicas, sendo ele nerd, pastor ou atleta, mas o filósofo junta essas sensações ao lado humano do homem. Ao abstraticismo e ao concretismo de seus pensamentos e dos pensamentos da mocinha. Enquanto a mocinha age em todo com o lado racional, isso quando é esperta o suficiente para utilizá-lo. Esse relacionamento tende a durar, dura até que ela resolva entrar para o clube dos filósofos, quando será alvo da malandragem dos veteranos, quando não compreender os debates e então imaginará que o namorado é meio louco.

Então ela o chamará em um canto isolado da escola, certamente na sala de aula durante o intervalo, ou tomando um sorvete, depois de um beijo seco ela irá dizer que amou ter conhecido-o, que foi ótimo o que houve entre os dois, mas que é melhor serem somente amigos daquele dia em diante. Mas caso isso não ocorra há apenas umas poucas coisas que podem por fim ao relacionamento, ele for expulso da escola, ela ser transferida, ou se durante a faculdade ele seja visto por alguém com uma caloura. No internato os boatos se espalham mais rápido que fumaça ao vento. Do contrário serão casados assim que se formarem, e serão felizes até que estoure uma revolução.

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