O Grito Lost

Conto e novela

Paulo Valença, o gênio do conto

Luiz Fernandes da Silva (*)

 

Não resta dúvida que o contista Brasileiro Paulo Valença nascido na Paraíba e hoje radicado no Recife tem sido nota predominante nas Letras Brasileiras.

Autor de centenas de livros de excelentes contos de sucesso. Entre eles cito O Poder das Imagens (maravilhosos contos), Os Filhos não Morrem, A Insinuação do justo, A Voz das Horas, O Olho da Morte, A Noite é Testemunha, entre outros. Cada livro que ele escreve deixa o público espantado pela beleza de livro que encanta a mente do leitor que gosta de obras excelentes, como essas que o Paulo tem escrito. Falar sobre a obra de Paulo Valença é exaltar o grande fenômeno do conto Brasileiro. Paulo Valença já é um nome nacional que já deveria ter ingressado em qualquer Academia, como a de Pernambuco, da Paraíba, do Rio de Janeiro ou então na Academia Brasileira de Letras porque ele honra se sentar em qualquer cadeira. Uma prova estar no conjunto de suas obras. Por outro lado ele já estar consagrado nas letras porque ele já recebeu o beneplácito do grande Humberto Del Maestro, Enéas Athanázio, Milton Ximenes Lima, da maravilhosa Suely Correa Gomes, Evandro Moreira, e tantos outros.

Paulo Valença é realmente a maior vertente das nossas letras. O seu conto cativa para aquele que aprecia um bom livro. O seu expressivo estilo é próprio que não segue nenhum Escritor e sempre mostra uma versatilidade incrível. Paulo Valença é sem dúvida extraordinário e merece ser cada vez mais laureado, cada livro que ele escreve se destaca cada vez mais. Acredito que o Paulo Valença ainda irá brilhar mais no Panorama Cultural pelo o brilho de sua abalizada pena. Leiam, continuem lendo os livros desse excelente contista de primeira grandeza.

Paulo Valença é considerado uma grande celebridade da Literatura Brasileira. Parabéns Paulo.

João Pessoa Junho / 2008.

(*) Luiz Fernandes da Silva

Editor do Correio de Poesia e Ativista Cultural Brasileiro.

Sumário

Antes da chuva

Ou chorar perdido

ANTES DA CHUVA

Paulo Afonso disse:

16 de fevereiro de 2009 at 13:13

Já passei por isso algumas vezes e entendo bem o sofrimento que ocasiona. Não tanto pelo salário, mas pelo fato de ter sido o escolhido, sinal que seria o último do ranking.

É triste.

É um recomeço.   Muitas vezes até melhor. Mas não serve de consolo. Fica marcado para a vida inteira.

* * *

lu dias bh disse:

16 de fevereiro de 2009 at 15:49

Paulo Valença

Quero destacar no seu texto essa sintonia que existe entre um casal que vive bem.

Um capta os sentimentos do outro num olhar, numa palavra dita, no som da voz, no semblante, na maneira de olhar. É uma empatia tal, que os dois se tornam uno.

E as mulheres, por serem mais observadoras, sofrem junto ou se alegram com o companheiro, em dose maior.

Como sempre, o seu texto é belo e humano.

E essa sua humanidade encanta-me.

Parabéns!

Abraços,

Lu

* * *

GUTIERRITOS estes:

16 de fevereiro de 2009 at 21:39

O seu texto trabalhou muito bem o cotidiano do trabalhador, nas horas mais amargas de sua vida, o desemprego.

É por isso que devemos buscar a proteção social intensa e perene para que o nosso trabalhador, qualquer um do povo, tenha mais tranqüilidade nos momentos mais aflitivos de sua vida.

Esse drama existe e agora está mais do que nunca presente diante da crise financeira e econômica que assola o mundo sem juízo.

Parabéns.

* * *

Hila Flávia disse:

17 de fevereiro de 2009 at 0:06

Quando minha cabeça começa a voar, dando-me uma sensação de atemporalidade, Paulo, leio um texto seu e retorno a um mundo difícil. Você parece linha número 10, a linha de pipa, que me mantém conectada (o C caiu na reforma nova?) com a realidade.   Eu sempre fui muito antenada, muito curiosa, muito questionadora. Mas, de uns tempos para cá, ainda atenta aos meus, ao meu mundo no povoado, à minha comunidade de fé, a socorrer com alegria meus amores e amigos. Não estou mais dando conta do sonho de abraçar o mundo. E como já lutei por isso.   E como me achava forte. É como se canta: Hoje não colho

mais as flores de maio nem sou mais herói como os caubóis. É, talvez eu seja simplesmente como um sapato velho, mas ainda sirvo, se você quiser, basta você me calçar que aqueço o frio de seus pés. A letra começa dizendo que naquele tempo eu tinha estrelas nos olhos. Isto eu acho que ainda tenho, mas estão dentro do coração. Fico feliz com sua força mantida.

Ainda bem.

De sua leitora assídua.

* * *

Terezinha disse:

20 de fevereiro de 2009 at 112:12

Paulo,

Meu marido e eu, alguns irmãos, hoje aposentados, não passamos por essa desalegria de sermos dispensados de um trabalho, de nos ver desempregados. Trabalhamos no serviço público.

Hoje, vemos nossos filhos, sobrinhos, amigos de qualquer idade pulando de galho em galho, quando não muito, tempo no chão é duro!

Pelo jeito, a maior indústria em funcionamento nos dias de hoje, não sujeita à crise, é a indústria de cursinhos para concurso. Até cursinho para vestibular está entrando em crise de falta de alunos.

TT.

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É a tristeza e a insegurança de quem perde o emprego, muitas vezes sem ter nem mesmo uma reserva que lhe garanta o sustento até nova contratação.

É uma situação dololorosa, mesmo!

Moreira – 200/11/16   23:41:42

 

 

Chega a casa de rosto fechado, a testa vincada por rugas, os lábios comprimidos, como se contendo, prendendo o que ele sente.

A mulher entende-o: algo o preocupa e, quando assim, o melhor, o sensato é lhe evitar a palavra, deixá-lo com seu mundo íntimo.

Ele se senta à cadeira de balanço, no terracinho. A vista nas residências do morro defronte, na inclinação do terreno. As escadarias estreitas, longas. Os panos secando nos varais. Uma voz feminina falando com alguém. O céu cinzento-escuro, no prenúncio da chuva. E agora, o que será dele, Jurandir, da mulher e do filho pequeno, o Júnior? Cadencia-se. Mas, tudo na vida tem um jeito. Não há problema que não tenha uma solução. Boa ou má ela virá.

– Virá.

Repete, dando ênfase ao que sente. Continua (desde que saiu da fábrica) sentindo o “vazio”. . . As palavras do chefe-encarregado voltam no aviso:

– Jurandir você não precisa vir mais trabalhar. Venha daqui a oito dias para acertar “suas contas”.

– Mas?

Atônito apenas se resumiu na indagação. O homem moreno fechado prosseguiu falando:

– Você não é o primeiro da “lista”, com você sairão mais dez. A indústria passa por uma “crise” e, se continuar assim, terminará fechando!

Os colegas também perplexos ao lado, seguindo a cena. À noite caindo. As lâmpadas mercúrio do salão acesas. As máquinas paradas. Operários passando na pressa natural de “largar” para o descanso do final da semana.

Cabisbaixo, sentindo já o “vazio”, com dificuldade, tornou a falar:

– Tudo bem, Seu Tomé.

– Vai com Deus, Jurandir.

Evitou os colegas e devagar se afastou. Desempregado. . . Por que de repente isso mais uma vez lhe ocorria? Parecia-lhe estar num pesadelo, do qual necessitava acordar, para se reentregar à vida. Fora, viu ao lado, o trator amarelo, com o Joãozinho manobrando-o, na condução do bagaço-de-cana; os operários também se movendo em direção da portaria, onde “carimbariam” os cartões; o bueiro comprido expelindo a fumaça; a sirene anunciando o início do próximo expediente. . . Imagens conhecidas, mas que naqueles instantes, se lhe apresentavam como o último adeus. É mas não fora e nem seria a última vez que se via desempregado. Contudo, é sempre dolorosa essa realidade.

– Sempre!

A mulher adentra no terraço e solidária ao silêncio do companheiro, nada fala. Ele então se erguendo:

– Vou me banhar para jantar.

– Vai Jurandir.

Com os olhos apiedados ela fica vendo o corpo magro, de cabeça grisalha, braços longos, deixar o terracinho, cruzar a sala, entrar no corredor e sumir na outra sala, com a cozinha e o banheiro conjugados.

Senta-se na cadeira e com a atenção no morro, busca apenas se prender ao que presencia, enquanto à noite em sua eterna indiferença aos poucos, envelhece.

Cadencia-se. E fica a espera da voz lhe pedindo o jantar.

A chuva então desaba. Forte. Ritmada. Molhando tudo. Tudo.

A mulher cochila.

LOST OR CRY

1

Samuel está na fábrica, trabalhando. Daqui a pouco chegará. Calado. O rosto fechado. Cabisbaixo. Os gestos lentos, na demonstração de estar preocupado. Sim, ela, Rita, conhece-o bem. Sabe quando o marido se martiriza com algo. E, quando assim, respeita-lhe o mutismo denunciante.

Cuida do jantar. Prepara a sopa. À noite mal-nascida se mostra através dos sons de outras noites: o choro de uma criança; os latidos de um cachorro pedindo liberdade; a zoada dos veículos cortando a rua transversal, embaixo; a música do momento tocada por um rádio. . . Cobre a panela e, de pé, como está, fica com a atenção na vasilha, esperando a água ferver, quando então a comida estará pronta. O pensamento retorna ao companheiro. Samuel lhe disse ontem, ao chegar do trabalho, quando os dois se encontravam no terraço à frente da residência:

– Rita, segundo comentários, a peãozada vai entrar de greve.

Ela se voltou, perplexa e (fitando o rosto sério, de testa enrugada, o olhar perdido em quê? Nas residências circunvizinhas? No céu sem estrelas, acinzentado? No descer de um homem na escadaria defronte?) falou, buscando lhe aquietar o espírito:

– Pode ser mais uma “fofoca” Samuel. Esse pessoal adora agitar!

Sem se voltar, ele tornou a falar:

– É pode ser. O melhor é a gente esperar. Mas, estou com um pressentimento. . .

– Esquece isso Samuel. Você se “encuca” com tudo!

Silenciaram, enquanto fora, a noite continuava sua vida própria, na marcha ininterrupta de sempre: o rádio tocando; o cão ladrando; os veículos transitando; homens e mulheres subindo ou descendo as escadarias estreitas, longas.

– Bom. . . Vou ver um pouco a televisão.

– Vai Rita. Vai.

Erguendo-se ela adentrou na salinha conjugada e, no sofá, ficou seguindo a novela de gente com outras histórias, outras vidas.

No terraço, Samuel se manteve, entregue às reflexões, ausente do mundo real.

2

Samuel “marca” o cartão e o põe no quadro ao lado do relógio–de–ponto.

– Até amanhã, Zé Rodrigues.

– Vai em paz, irmão.

Responde-lhe o “segurança”, por trás do birô, acompanhando os operários no “carimbar” dos cartões.

– Vocês batam mais devagar, senão quebram o relógio!

Reclama o vigilante, e os funcionários lhe atendem.

Fora, Samuel caminha. Ao dobrar a esquina à esquerda, entrará na rua que o conduzirá a 3ª. Travessa na qual, na segunda casa, mora com a mulher, a Rita. Move-se devagar, pensativo.

Se os operários decretarem mesmo a greve, quais serão as conseqüências depois?

– Nem é bom pensar.

Diz baixinho. A rua está com o movimento de costume: pedestres nas calçadas laterais; carros passando; mulheres às calçadas, conversando; alguém gritando, em xingamento:

– Vai te lascar porra!

A gargalhada do ofendido, em deboche. Adianta-se. Com 42 anos, desatualizado em sua profissão. . . Não, melhor não se imaginar demitido, e tendo mais uma vez, de lutar pela sua sobrevivência e da Rita, que está grávida! Sim, evitar se ver assim. . . Mesmo porque até agora tudo não passa de um “boato”. Nada esteja confirmado.

– O sindicato luta por os 20% do nosso aumento e quer que a gente entre em greve.

Dissera-lhe o colega de seção, o Pedro e ele:

– Mas, a indústria não já anunciou os 10%, não ter condição de pagar mais?

– Samuel cara, a empresa tem dinheiro, está faturando alto e é claro que tem de dizer que está sem condição. Se a gente não lutar, não gritar, vai receber apenas esses 10%!

Fitou o rosto pálido do Pedro e expressou o que sentia:

– O problema Pedro é que acho tudo isso muito arriscado. Haverá as demissões e a gente é que irá sofrer depois. . . O sindicato agita, agita, e não acredito que enfrente a empresa.

Pedro então retrucou:

– Você só pensa no que é pior. É negativista!

Então silenciou. Para quê travar uma discussão com o colega? Mais sensato seria se calar e assim fez.

Pedro retornou à sua prancheta e baixando a cabeça, ele também se reentregou ao trabalho. Desenhando.

Nas demais pranchetas, os colegas cabisbaixos, trabalhavam, no fingimento de não ver, entender, participar. À frente deles, ao centro da sala, o encarregado também num birô, estudava-os. A fisionomia morena pálida, tensa, entregue a interrogação da incerteza do dia seguinte.

A sirene aí apitou, anunciando o término do expediente.

Apressados os colegas deixaram a seção e ele, de propósito, se deixou ficar atrás, entregue às reflexões.

Sobe a rua ladeirada. Quanta vez já a subiu? Quanta vez ainda a subirá?

Debruçada no murinho defronte a casa, Rita o espera e, vendo-o subindo a rua, sorri. Apaziguada. Esperançosa.

3

Zé Rodrigues põe os cartões sobre o birô, num pacote, para entregá-los ao departamento-pessoal onde o Cláudio verá um por um, para saber qual funcionário faltou ao trabalho. Calmo, arruma o pacote, feito o quê, senta-se na cadeira atrás do birô.   Espera que o colega Isaías chegue para então se ausentar da portaria.   Fora o sol brilha com força. A manhã reina, avançando. O bueiro à esquerda, se ergue por trás do telhado da seção de mecânica. A fumaça ganha o ar, poluindo-o. Então, de repente, o vigilante pensa na provável greve que ameaça estourar. Esses operários estão brincando com a diretoria. Não sabem do quanto ela seja capaz. . . E terminarão no “olho da rua”.

– Uns bestas!

Sim, uns tolos: vão na “onda” do sindicato e “verão o que é bom pra tosse!”. Mas, cada um com sua vida, com seu mundo. E não será ele, um simples vigilante, quem dará um jeito em dezenas de cabeças, portanto, façam o que bem quiserem. Foge a vista aos funcionários que adentram, ezaminando-os, em silêncio. Estes “carimbam” os cartões.

– Bate mais devagar cara. Assim, quebra o relógio.

Reclama. O homem amulatado, baixo, envelhecido, não retruca e, pondo o cartão no quadro, se afastando devagar ganha a rua. Uma mulher “bate” o ponto. Em seguida outros operários. Zé Rodrigues segue-lhes os gestos. O rosto fechado, a testa vincada. Os trabalhadores passam, e despedem-se:

– Até amanhã, Zé.

– Até amanhã, Toinho.

– Até amanhã, Seu Zé Rodrigues.

– Até amanhã.

A seção aos poucos se esvazia e Zé Rodrigues novamente sozinho, estende a atenção ao pátio à esquerda, a balança defronte, ao trator que passa carregado de bagaço de cana. O sol cintila. O céu está azul, com nuvens passeando. Um dia bonito.   A essa hora, a mulher, a Verônica, está na cozinha, ocupada com a refeição do almoço, que ele saboreará mais tarde. Sorri, antevendo o tempero da boa comida. O telefone então toca.

– Alô? Sim, o doutor Rildo? Está bem, darei o recado. Certo. De nada!

Uma voz feminina, procurando o doutor. . . Pedindo-lhe para avisá-lo de passar em Piedade. Deve ser uma “paquera” do doutor, que é um “gavião”. . . Repõe o fone no gancho e erguendo-se, fica à porta que dá acesso a rua, vendo o movimento desta. Pedestres passando. O coletivo que estaciona ao meio-fio, da calçada defronte. A moto passando em disparada. Enfim, a vida diária, mais uma vez se repetindo. Saber que numa hora futura, tudo que vê estará diferente, não mais existirá, na seqüência natural de tudo! Ah, os mistérios da existência. Retrocede ao birô e novamente sentado, continua refletindo, O Isaías está demorando. . .

-Bom dia!

A voz conhecida. Vira-se:

– Já estava pensando que você não veria. . . Assume o posto que vou entregar os cartões e “largar”.

Então, levantando-se:

– Por hoje já chega.

Isaías também sorri:

– Vai lá, amigo. Deixe comigo.

Ele, conduzindo na mão o pacote dos cartões então se retira. Grande. Forte, Moreno fechado.

Isaías ocupa a cadeira. Outros operários começam a chegar, para assumir as funções.

– Bom dia.

– Bom dia, morena bonita.

Carminha sorri vaidosa, feminina, mulher. Rebolando-se, na “graça” da idade, retira o cartão do quadro e “carimba-o”. Isaías acompanha-lhe os gestos. O desejo despertando. Se essa menina lhe desse “bola”. . .

– De que está rindo Isaías?

– Nada não. Pensando em besteira.

– É nisso você é bom!

Responde à morena e apresando-se desce os degraus que a conduzem ao pátio e deste ao salão adiante, onde trabalha como costureira.

O toc-toc-toc das batidas secas, ritmadas do relógio prosseguem, com os demais operários “marcando” a presença.   Zé Rodrigues retorna, e também “carimbando” o cartão, despede-se do colega:

– Vou lá, Isaías. Até amanhã.

– Vai com Deus, Zé.

Este ganha a rua. E, durante instantes o vigilante se ver sozinho, enquanto o sol invade pedaço da sala larga, enquanto o relógio-de-ponto trabalha dentro de suas batidas secas, cadenciadas.

A manhã vai passando.

4

Samuel passa, evitando o pessoal do sindicato defronte à indústria, distribuindo o impresso, que convoca os trabalhadores para a próxima reunião.

– Com licença.

– Tem toda.

Responde o sujeito baixo, gordo que, já lhe disseram ser o presidente do sindicato. E seguido pelo olhar crítico do presidente, Samuel adentra na portaria.

– Bom dia, Zé Rodrigues.

– Bom dia, Samuel.

Este “carimba” o cartão e o repõe no quadro.

Então, o vigia, sorrindo:

– Não quis o “planfeto” não, Samuel?

Ele se voltando, responde:

– Não me agrado desses caras não. São uns vivaldinos!

– Também acho colega.

Samuel se avizinha do birô e, o guarda baixando a voz:

– Estão convocando o pessoal para uma reunião, para marcarem a greve.

Outros operários adentram:

– Bom dia.

– Bom dia.

Samuel sem mais nada dizer, retira-se.

Zé Rodrigues segue-o com os olhos, no exame natural à sua função de vigilância. Um sujeito direito esse Samuel: não se envolve em nada, sempre na “sua”. Se os outros fossem assim. . .

As batidas secas, cadenciadas, do relógio. Os passos apressados dos que chegam, “batem” o cartão e descem os degraus em rumo à seção.   O sol que aos poucos, esquenta. O bueiro comprido expelindo a fumaça em rolos, escura, poluidora. E a sirene avisando o começo do novo turno. Até quando se ouvirá esse grito estridente? Só o futuro responderá.

– Só o futuro!

– Falou Zé?

Ele então desperta com a indagação:

– Não, nada não.

Sorrindo o operário afasta-se, acompanhando os demais em sentido do salão. Zé Rodrigues tenta se “prender” à voz que de repente, vem do alto-falante, sobre a Kombi:

– Companheiros precisamos nos unir por nossos direitos. Enquanto a gente trabalha para receber o salário irrisório, tem os que recebem em dólar! E quando chega o reajuste anual. . .

A voz continua na convocação. O vigia então se ergue e fecha a porta, como se com o gesto evitasse o protesto, evitasse o que teme que ocorra: a greve, que causará prejuízo à classe trabalhista, à indústria, que. . .

Então, o telefone chama.

– Alô? Pode falar.

Com vagar, na missão de todas as manhãs, o sol chega à sala através da abertura que dá acesso ao pátio ao lado. Adentra, no aviso de que esquenta, no anúncio de que a manhã passa.

-Devemos lutar companheiros!

A voz continua. Na calçada fronteira, pedestres param, curiosos. Ônibus estacionam. Carros transitam devagar e o tempo indiferente a tudo, no seu eterno egoísmo, caminha.

Repondo o fone no gancho, Zé Rodrigues se ergue impaciente, e diz baixinho, em desabafo:

– Agitadores. Bando de safados!

Com a mão nervosa penteia os cabelos lisos para trás. Por que o Isaías tarda?

Retornando ao birô, espera.

5

Doutor Rildo chega-se ao vidro largo na parede que exibe o movimento do salão embaixo. Pensativo corre a vista no que presencia: máquinas funcionando; operários em suas funções de empurrar carrinhos com caixas; auxiliares próximos às esteiras, acompanhando o descer das caixas abertas nas esteiras; outros varrendo o piso; mulheres na contagem das caixas; outras sentadas, costurando; encarregados que circulam, fiscalizando. E o som que sobe das máquinas e ganha o ar, pesando. . . Um mundo.

– Um mundo.

Repete, dando voz à conclusão com o vê. E. . . Como tudo isso pode de repente parar, com a greve anunciada? Sim, já lhe alertaram sobre o movimento encabeçado pelo sindicato que, ainda ontem mesmo, distribuiu planfeto e ficou defronte à indústria, falando pelo alto-falante na Kombi. Uns agitadores, comunistas! É mas a diretoria reagirá a essa insubordinação, caso ela ocorra. A demissão será o prêmio para os rebeldes.

– Vão se lascar!

Volta-se e retorna ao birô. O rosto avermelhado, as mãos nervosas, trêmulas. Precisa se conter, não perder a calma. Mais do que nunca, necessita desta para saber como agir, no caso da greve.

– É isso aí, doutor Rildo.

Sorri e confere os pedidos a serem confeccionados. A produção está boa. As solicitações por caixas aumentam. A indústria passa por uma boa fase, contudo. . . Mas, tudo se resolverá. Não há problema sem solução. Então, alguém bate na porta, anunciando-se.

– Entre.

A porta se abre ea figura morena, de Carminha se destaca.

– Bom dia.

– Bom dia.

A jovem sorrindo se avizinha do birô.

– Sente-se.

Ela obedece, ocupando a cadeira à frente do móvel. Doutor Rildo espera. E a funcionária:

– Eu queria se fosse possível, que o senhor me desse à chance de trabalhar no setor-pessoal. . .

O diretor permanece calado. A jovem cruza a perna direita sobre a coxa esquerda, moreno-dourada,  exposta pelo vestido curto  em gesto estudado, provocativo. Os olhos do homem acendem-se a entendendo e, com vagar, então quebra o mutismo:

– Você estudou até que série?

Tornando a sorrir (sabendo de já, que conseguirá a transferência) a funcionária volta a falar:

– Tenho o ginasial completo.

– Tudo bem. Falarei com o Cláudio e ele fará um teste com você; se aprovada, você deixará o salão.

– Obrigada, doutor.

Ergue-se ligeira, com feminilidade e, fitando o rosto alvo, afilado:

– Mais uma vez obrigada!

– Claro.

Ela aí se ausenta. Com a porta se fechando, doutor Rildo sente então o vazio. . . Que menina interessante! Falará com o encarregado do setor-pessoal, o Cláudio, conseguirá a transferência dessa moça. Afinal, é um dos acionistas da indústria. E depois. . . Com jeito (quem sabe?) terá como recompensa, uma nova amásia.

– Assim é que as coisas funcionam.

Novamente se repete prático, vivido. Senhor do cotidiano da grande empresa.

Retorna à conferência dos pedidos, pois cada coisa em seu determinado tempo e os prazeres pode esperar. Sorri conclusivo. Sempre prático.

6

Rita debruçada no murinho vê o marido descendo a rua e sente uma “coisa”. . . Não, tem de se conter, ser forte. Não chorará! Afinal, tudo em nossa vida é passageiro. Amanhã, será um novo dia. A esperança renascerá.

Samuel dobrando a esquina desaparece de seus olhos analíticos. Sente então, como se somente agora a percebesse, a luz do sol lhe banhando, numa carícia morna da manhã recém-nascida. No ventre o filho se mexe, dando-lhe o aviso de que vive numa hora chegará.

Ela sorri, antevendo o ser pequeno, seu filho, o fruto do amor seu com o Samuel. Sim, uma outra vida despontará, com seus dramas, seus caminhos, suas incógnitas.

– Bom dia, D. Rita.

– Bom dia, Seu João.

– Esquentando no sol?

– Pois é. É bom pra saúde.

Aquiescendo com a cabeça, o homem magro, negro, envelhecido, prossegue descendo a rua estreita. De uma casa próxima vozes conversam. De outra vem os gritos de crianças brincando. Da avenida à esquerda, no alto do Morro do Capitão, o coletivo cruza-a devagar, devido à perigosa inclinação. O céu está azul, com nuvens. Tudo enfim prossegue, haja o que houver. Mas, é assim mesmo. A gente chega ao ponto de se resignar com tudo, como se fossemos apenas uns bonecos, manobrados por uma Força Maior. . .

– Hoje amanheci pensativa demais!

Zomba-se e sorrindo, deixa o murinho, adentra no terraço e em seguida na sala conjugada, de volta à obrigação doméstica.

No ventre, a criança outra vez dá sinal de vida. Então, a mão de Rita acaricia o ventre, no simbólico gesto de também afagar o filho.

O Samuel ontem chegou da fábrica calado, aliás, ultimamente anda assim. Preso em si, na tortura do receio de se desempregar. Aí ela buscou despertá-lo ao presente, libertá-lo das reflexões angustiantes:

– Samuel esfria a cabeça, criatura! A fábrica não entrará em greve não. Pode ser mais uma fofoca dos peões. Essa gente adora notícia ruim. “Curte” uma desgraça, para depois, se fazer de vítima.

Ele (estava na cadeira de balanço aí no terraço) ergueu o rosto, de olhar ausente e, fitando-a, respondeu, sorrindo:

– Nisso você está certa Rita. Gente pobre adora se passar por vítima!

Ela sorriu também e, de repente, em silêncio se deixaram ficar, um à frente do outro, contudo, era-lhe necessário tirar o marido do mundo perigoso. . . E tornou a falar:

– Você tem de concluir o seguinte: mesmo que os peões entrem em greve a direção da empresa demitirá apenas os “cabeças” e os mais exaltados. Não serão todos os prejudicados.

– Sei não, Rita. Tenho minhas dúvidas.

– Entendo você. Mas, vamos pensar positivo!

Então, levantando-se da cadeira:

– Você vai tomar o banho para jantar?

– Vou.

Erguendo-se ele adentrou na sala vizinha, em direção ao banheiro, após o corredor e conjugado a outra sala, deixando-a sozinha, entregue às reflexões. Ah, se tudo isso já passasse! Chegasse à hora de se ver liberta dessa angústia em presenciar o Samuel calado, imaginando o pior! Mas, tudo é transitório. Tudo se acaba. Nada é eterno. Nada. . . E desviou a atenção às residências embaixo, na rua transversal, de luzes acesas, como em busca de uma resposta, que a tranqüilizasse, desse-lhe a paz do espírito.

7

Zé Rodrigues se despede do colega Isaías:

– Até amanhã, Isaías.

– Vai com Deus, Zé.

Ele sorri, repõe o cartão no quadro e cruzando a seção logo se ver na rua, com pouco movimento de carros e pedestres. No abrigo defronte, na calçada fronteira, pessoas (a maioria operários) aguardam os coletivos. Afasta-se. Segundo lhe contaram a greve “estourará” amanhã. . . E o que virá depois, sucederá ao operariado?

– Só Deus sabe.

Provavelmente (como sempre) ocorrerão as demissões e quem serão os dispensados? Com certeza os “cabeças” do movimento e aqueles mais exaltados. Mas, os trabalhadores sabiam o risco ao qual se expunham, portanto, terão de arcar com as conseqüências dolorosas. Cruza a rua e no abrigo, com as demais pessoas, aguarda o ônibus.

A noite vai amadurecendo. No morro além do limite do terreno da indústria, as lâmpadas acesas das casas se assemelham aos olhos da noite. Zé Rodrigues continua pensativo. Será que os vigilantes também serão punidos com a demissão? Como saber? Com a mãe adoentada, o pai ganhando pouco, o irmão adolescente sem emprego. . . Não, melhor não se ver desempregado. Afinal, ele não participará da greve, se conservará afastado, ausentando-se, na conveniência de se “garantir” no emprego, portanto, pela lógica, não será penalizado. O coletivo aproxima-se. Estaciona. E com os que o aguardavam Zé adentra apressado. Senta-se na cadeira vizinha a janelinha, que exibe as residências, pedestres e os veículos que, vão ficando para trás.

Fechando os olhos, cochila. A condução contornando a Praça de Beberibe segue em frente. E o vigia se ausenta, esquecendo-se, ao embalo do ônibus e do cochilo amigo.

8

O ônibus ganha a Avenida Hildebrando de Vasconcelos. Sentada na cadeira vizinha à janela, Carminha segue com os olhos curiosos o que vai ficando para trás. Residências conjugadas, com terracinhos iluminados; pedestres caminhando nas calçadas; carros, motos; o morro ao lado direito, com a inclinação vertical de residências espalhadas, com as escadarias longas, estreitas e moradores indo e vindo. . . Um mundo conhecido, com seus dramas diários e sem término. . . Pois, enquanto houver seres, a angústia não terá fim. Assim é que as coisas funcionam.

A morena vai satisfeita. Está trabalhando agora no setor-pessoal, como auxiliar do Cláudio, o chefe. Graças ao doutor Rildo que falou com Cláudio a seu favor, foi transferida do salão e está nesse setor.

– Menina você tenha cuidado. . .

Alertara-lhe a colega, no salão, ao saber de sua transferência. E ela, curiosa, ingênua:

– Por que você diz isso, Maria?

A mulher “coroa”, antiga funcionária da empresa então sorrindo, lhe esclareceu o porquê do aviso:

– O doutor Rildo não “bate prego sem estopa”. . . Depois, vai querer o retorno. É um “gavião” de marca!

Ela aí entendeu a insinuação e retrucou ofendida:

– Maria eu não sou uma “qualquer” não. Sou bem diferente!

– Sei Carminha. Apenas lhe aviso. . . Mas, esquece, e vamos acabar essa costura.

Cabisbaixa, ela retornou ao trabalho com a máquina, costurando as caixas. Maria tinha razão: nada se faz neste mundo sem uma intenção. O doutor Rildo depois “lhe exigiria o pagamento. . . ” Contudo, até atendê-lo, o caminho seria longo! Sorriu e se entregou a tarefa de sempre. Ainda bem que iria a partir de amanhã trabalhar na seção-pessoal. Um outro ambiente, no qual poderia se projetar, ser da “elite” da indústria. O futuro ser-lhe-ia diferente. Promissor. E tudo pelo seu sonho de ser alguém. Sair aos poucos, da pobreza, em busca de outra existência, para auxiliar a mãe, o irmão pequeno, o pai sacrificado, sem emprego definido, defendendo-se por meio de “biscates”. . . Sim, tudo lhe seria diferente.   Agora, decorrida uma semana, sente-se realmente outra, uma nova Carminha.

O coletivo adianta-se. Ali está a parada, na qual saltará. Ergue-se e puxa o cordão no teto do coletivo, solicitando a parada.

O ônibus estaciona e apressada, ela salta. Cruza a avenida e entra no Bairro de Linha do Tiro. Caminha, com outros pedestres na calçada estreita. Seres mal vestidos, tristonhos, cabisbaixos, provavelmente operários regressando aos lares, para o repouso noturno, e amanhã retornar ao trabalho.

Apressa os passos, no desejo de se ausentar da cena conhecida, repetida e sofrida.

Com os olhos maliciosos os homens à mesa fora do bar, na calçada, seguem-na.

– Vê que morena enxuta.

– Meu camarada com essa menina eu virava a noite.

Sorriem coniventes. Ela passa, fingindo não lhes perceber os olhos acesos do pecado. E intimamente, “curte” a vaidade em se saber jovem, morena, bonita e desejada.

Adianta-se.

Entre os homens há o silêncio que diz tudo.

9

A voz do presidente do sindicato vem de dentro da Kombi e espande-se pelo alto-falante sobre esta:

– Companheiros chegou o nosso decíduo e o patrão só oferece 10%, o que é muito pouco. A inflação está disparada. Precisamos ganhar mais!

Em volta ao veículo, o grupo de homens e mulheres escutam, compenetrados. A voz continua:

– Temos de lutar por nossos direitos. Quem é que trabalha 48 horas por semana? Se acaba para enriquecer a indústria?

Carros passam ao lado, devagar, com os motoristas curiosos ante a aglomeração dos operários.

Na outra calçada, trabalhadores em grupinhos escutam. Silenciosos. Contudo, há os que comentam:

– O presidente tá falando a verdade: a gente tem de ganhar mais!

– Mas, meu chapa, a fábrica não prometeu na reunião que daria a nós 10%?

– E você acha isso justo, Damião? É muito pouco.

Damião após refletir:

– Melhor 10% do que o incerto. . .

O colega não aquiesce:

– Você é muito acomodado. É por isso que a nossa classe vive sacrificada. . .

Silenciam e tornam a prestar atenção à voz:

– A diretoria disse que quer marcar outra reunião com o sindicato e concordamos. Vamos conversar botar tudo em pratos limpos.

– Apoiado!

– Apoiado!

– É isso aí!

Os gritos. O entusiasmo. As palmas. Os assovios. A vibração. O presidente continua satisfeito com o apoio recebido:

– Nesta quarta-feira vamos falar com a direção da empresa. Vamos marcar a esperada reunião. Quem estiver com o sindicato levante o braço direito!

Novos gritos. Palmas. Assovios. E os braços são erguidos.   A alegria é contagiante. O presidente prossegue:

– Vamos lutar. Unidos venceremos!

A tarde vai morrendo. E defronte do portão largo, junto à entrada da portaria, está a faixa com a frase em vermelho, no fundo branco: ESTAMOS EM GREVE.

Samuel à calçada defronte, acompanha a cena, calado, refletindo. Aí está o movimento promovido pelo sindicato, a greve que se iniciou há dois dias, com a paralisação da fábrica. Como tudo isso irá acabar? Quais as conseqüências que depois, eles, os funcionários terão de amargar? Quantos operários se encontrarão no “olho da rua?”, após o término da greve?

– Só Deus sabe.

Fala baixinho, sem conter a conclusão angustiante. O homem ao seu lado olha-o interrogativo e Samuel:

– É meu amigo, Deus queira que tudo isso acabe bem. . .

O operário retruca:

– Cara você é pessimista. A gente vai conseguir o aumento que o sindicato pede. Se a gente não lutar. . .

– É vamos ver.

Calando-se, Samuel se afasta. Para que expor o que sente? O pessoal está “enfeitiçado” pela voz do presidente, portanto, é mais conveniente silenciar, se manter à distância, apenas ficar ouvindo.

– Se a gente não se valorizar, ninguém dá valor a gente não. Somos trabalhadores, pais de famílias, responsáveis!

Os gritos novamente, com as palmas, as vaias, a equiescência geral.

Sentado atrás do birô, Zé Rodrigues escuta a voz de fora. A greve “estourou” mesmo, há dois dias atrás que escuta essa infernal gritaria, com os operários parados, se deixando envolver por as promessas do sujeito baixo, que sabe como enganar os peões. É. . . Depois a peãosada verá o resultado! Levanta-se e estira os braços para o alto, exercitando-se.

Ao lado, escuta as batidas secas, ritmadas do relógio-de-ponto: toc-toc-toc.

À frente atrás do telhado da seção de mecânica, o bueiro se destaca longo, fino, sem expelir a fumaça enegrecida, em rolos. No pátio, o trator parado; a balança que pesa os caminhões carregados; as seções fechadas; o deserto pela ausência dos funcionários. . .

– Parece mais um cemitério.

Exclama e se mantém com a atenção agora no céu que enegrece ante a chegada da noite.

– Vamos decidir na reunião marcada. . .

Até quando, ele, Zé Rodrigues, terá de ouvir o homenzinho falando aos gritos? Até. . .

O telefone tilinta. Retrocedendo, atende-o:

– Sim, pode falar. Não, doutor Rildo ainda não chegou. Sim, darei o recado.

Por que essa mulher não se comunica com o doutor por meio de celular?

Repõe o fone no gancho. Sentando-se, escreve no bloquinho de anotações: “Falar com Gabriela, com urgência”.

Concluída a anotação, fica ouvindo o protesto vindo de fora:

– Não devemos desanimar companheiros! A gente luta pelo que é nosso.

Com a caneta ainda na mão, o vigia então escreve: “A gente luta pelo que nos pertence. A gente. . . ”.

A tarde escurece e a noite abraça a seção, ou melhor, a indústria, os operários na rua, tudo. Tudo.

10

Doutor Rildo para o encarregado geral do salão:

– Eu quero que você Edu, anote os “cabeças” da greve e os mais exaltados. Faça-me alista. Trabalhe discretamente. Entendeu?

O homem negro, gordo, aquiesce:

– Entendi doutor. Pode ficar sossegado que eu sei como fazer.

O diretor sorri, apaziguado, satisfeito com a resposta do subalterno.

– Faça-me esse favor que depois o recompensarei.

O servos Sorri devem ser disfarçando:

– Não precisa doutor. Vou anotar os nomes desses agitadores.

Então doutor Rildo o despede:

Bom. . . Você pode ir ver como estão cuidando das máquinas. Paradas elas precisam da manutenção.

– Pois não. Com licença.

Ergue-se e devagar deixa a sala. Fechada a porta doutor Rildo levanta-se do birô e se avizinha do vidro largo na parede, pelo qual enxerga o salão no térreo. As máquinas sem funcionar. Operadores lubrificando-as, no zelo da manutenção. Somente. O salão sem o movimento de sempre, parado. E agora a figura do Edu que caminha se chegando à máquina grande, à direita. Edu seu “braço direito”, o homem de sua confiança, a quem sempre entrega as tarefas mais sigilosas, difíceis.

– “Pau pra toda obra”.

Diz em voz baixa. A greve. . . Que causa enorme prejuízo a empresa, que repercute muito mal aos clientes e fornecedores, que há seis dias resiste a proposta feita numa reunião com o sindicato do aumento de 10% (o sindicato propôs 20%) que. . .

-Uns comunistas bagunceiros!

Mas, essa mesma greve numa hora, se acabará. . . Então, os “cabeças” receberão o que bem merecem.

Sim, gente para trabalhar não falta. A diretoria inclusive já o alertou: serão demitidos os porta-vozes do maldito sindicato.

– É isso aí, doutor Rildo.

Afasta-se do vidro e retrocedendo ao birô, ocupa a cadeira alta, fofa, de couro. E, no hábito costumeiro então confere os pedidos a serem confeccionados.

A diretoria, aconselhada por seus advogados, fará nova reunião com o sindicato e lhe propará o aumento maior, dividido em duas vezes. Se aceita a proposta, essa será assinada no ministério do trabalho. . . E, aos poucos, tudo voltará ao normal.

– Ao normal!

Fala mais uma vez, em desabafo e, de repente, pensa em Carminha, a morena bonita que, graças a sua intervenção, deixou o salão e trabalha no setor-pessoal. Procurará mais aproximação com a jovem. Indo visitar a seção. Oferecendo-lhe carona. . . Aos poucos, a conquistará. Conhece bem as pessoas que aspiram uma vida melhor. É um sujeito experiente, bem vivido, sabe os caminhos da ambição. E, quando se quer ver os sonhos realizados, se paga qualquer preço. Assim é que funciona a lei do mundo.

Sorri frio, prático, entregado a vida real.

Da rua chega-lhe o som do alto-falante transmitindo pedaços do pronunciante do sindicato:

– Fábrica. . . Não receber. . . Lutar companheiros. . .

– Uns agitadores, safados!

Nervoso levanta-se e cruzando a sala, logo está no salão, indo ao encontro do Edu, que o aguarda sorrindo, na subserviência costumeira.

-E aí cabra bom, como está à manutenção?

– Tudo bem, tudo certinho doutor.

– Ainda bem, ainda bem. Bom. . . Vou caminhar um pouco, arejar o espírito.

– É bom, doutor. “Disparecer” é sempre bom.

Afasta-se em passos rápidos, enquanto Edu com o olhar analítico o segue. O homem está preocupado. E com razão. . .

– Seu Edu!

– Já vou Betinho. Já vou.

Esse pessoal não sabe fazer nada sozinho. Puta merda! E vai atender ao mecânico.

11

Os operários tornam a “bater” os cartões. Silenciosos, cabisbaixos, desconfiados.

Atrás do birô, Zé Rodrigues segeu-lhes o comportamento, os gestos mais lentos, como se policiados.

Os homens e mulheres após pôr os cartões no quadro, descem os degraus, ganham o pátio largo e dirigem-se ao salão adiante, onde se dispersam em suas funções. Caminham mantendo o silêncio que os oprime e os revela. O sol brilha na manhã recém-nascida. O bueiro longo expele em rolos a fumaça negra, que sobe, apossa-se do ar, poluindo-o. Os funcionários adentram no galpão.

O vigia reflete, enquanto acompanha os recém-chegados operários que “carimbam” os cartões. Aí está em que deu a greve. . . Retornam aos trabalhos acuados, temerosos do que lhes pode suceder, entretanto, foram alertados pelos advogados da companhia e ignoraram o aviso e, após a 3ª reunião entre o sindicato e a diretoria da empresa, aceitaram os 10% oferecidos por esta.

– Entendemos a situação de vocês, mas, infelizmente, a empresa só pode lhes pagar os 10%. Nem mais um real. Para assumir um compromisso e não o cumprir, a fábrica não fará isso. Combinado?

O silêncio entre os representantes do sindicato e o operariado e, após minutos de expectativa, a proposta foi aceita e assinada, tendo sido ocorrida no ministério do trabalho.

– Podem voltar ao trabalho.

– Tudo certo, doutor.

As mãos se apertaram. Os sorrisos se estamparam nos rostos ainda sérios, tensos e logo as conduções lotadas regressaram à indústria com os trabalhadores mantendo o mesmo mutismo da derrota da não aprovação dos 20% de reajuste, conforme o sindicato propusera e eles terem apoiado. . . E, o mais grave: as demissões lhes ameaçavam, conforme insinuara os advogados há pouco.

A seção se esvazia. Zé Rodrigues estende a atenção aos telhados das seções que, aos poucos, retornam à rotina interrompida durante 15 dias. Amanhã, receberá a “lista” dos dispensados. Então, recolherá os cartões e, pondo-os sobre o birô, aguardará os já demitidos e os avisará da despensa, quando não encontrarem os cartões no quadro:

– Demitido. Comparecer ao setor-pessoal.

Falará cabisbaixo, evitando o rosto perplexo, a palidez subitamente cobrindo-o. Sim, apenas se limitará a cumprir a função de vigia-atendente.   E os desempregados então se encaminharão ao departamento próximo, na resignação dos vencidos. Mas, assim é a vida na indústria, com suas normas de comando. Afinal, tudo tem de atender a uma determinação, lei. Custe o que custar!

– “Custe o que custar”.

Repete-se e, erguendo-se, vai fechar a porta, que dá acesso a rua com seu movimento de carros, motos e pedestres se cruzando nas calçadas. No abrigo defronte, duas colegiais aguardam o coletivo. Sorridentes. Descontraídas. Inocentes da vida real, terrivelmente práticas. Fecha a porta para só tornar a abrir ao meio-dia, hora na qual os funcionários “largam” para o almoço e saem para a refeição nas barracas coladas no muro da indústria.

Novamente sentado, põe-se alerta, para enfrentar os próximos instantes, como zelador da ordem da empresa. E espera.

12

Isaías para Zé Rodrigues:

– Viu em que deu a greve? Um fracasso! Terminaram aceitando os 10% oferecidos pela fábrica e, para completar, essas demissões. . .

Zé Rodrigues cabisbaixo, arrumando os cartões em pacote para entregá-los ao Cláudio, do setor-pessoal:

– Eu já previa isso. Ninguém pode com o poder econômico não. Rapaz é besteira esse negócio de rebelião.

– Pois é, agora é que a “porca vai torcer o rabo”.

– Isaías, só se aprende apanhando. O sofrimento educa as pessoas.

O colega sorri:

– Gostei da frase: “O sofrimento educa as pessoas!”.

Sorrindo silenciam.

Fora, o sol da manhã banha os telhados das seções, que se apresentam mais enegrecidos pelo tempo; o bueiro se exibe maior, mais fino, e sem a fumaça de quando a caldeira queima a lenha; no pátio vizinho, o trator passa carregado de bagaço, e segue em frente, para o despejar no monte desse mesmo material, quase a entrada do grande salão.

O relógio-de-ponto bate seco, ritmado: toc-toc-toc.   Os homens mantêm-se calados. Pela rua no lado oposto à parede da seção, os veículos transitam apressados, na rotina que cresce.

– Bom. . . Vou entregar esses cartões e já volto.

– Vai lá, Zé. Qualquer “bronca” eu resolvo.

O “segurança” retira-se.

Isaías então se levanta da cadeira encostada à parede e ocupa a outra atrás do birô.

Sim, a indústria retorna a marcha de sempre e, aos poucos, preencherá as vagas deixadas pelos demitidos. A indústria não pára. Passos adentra.

– Bom dia.

– Bom dia Samuel.

Este passa e retirando o cartão do quadro e “carimbando-o” desce os degraus e no pátio segue em direção ao salão, onde trabalha no 1º andar, como desenhista, na seção de clichês.

Outros funcionários vão chegando. Novas batidas do relógio e o afastamento em seguida para as respectivas seções.

Zé Rodrigues retorna:

– Cartões entregues. Agora “bater” o cartão e ”largar”.

– É isso aí, colega. Vai descansar.

– Até amanhã.

– Até amanhã.

Zé Rodrigues ganha a rua e o outro permanece no birô, no serviço de atender e orientar os funcionários que chegam ou deixam a indústria. E a sirene apita, anunciando com seu grito estridente, prolongado o início do novo expediente.

O sol esquenta e, com vagar, adentra na seção.

Levantando-se Isaías fecha a porta. E retorna à cadeira.

13

O ônibus afasta-se da fábrica. Sentado na cadeira vizinha a janelinha, a jovem estende a atenção ao que a condução vai deixando para trás, à proporção que ganha a Avenida Hildebrando de Vasconcelos.   Residências com terracinhos, conjugadas; pedestres nas calçadas laterais; veículos indo e vindo nas faixas; o morro à esquerda, além da Avenida Canuto de Melo, com sua inclinação vertical, de casinhas iluminadas e escadarias escurecidas pela noite. . . Quanta vez viu essa cena? Que fascínio ela lhe exerce! Saber que numa hora futura não mais se lembrará disso tudo, pois, com a velhice, a gente se transforma em outro ser e passado vai se perdendo, até desaparecer. . . Mas, assim é a vida. Temos de nos resignar com o que somos e. . . Seremos um dia.

O ônibus corre. A brisa noturna adentrando, afaga-lhe as faces, os cabelos fininhos, negros, longos. E Carminha fecha os olhos, como se quisesse guardar para sempre o que vive e. bem sabe, não mais viverá no futuro. Então, de repente, a figura do doutor Rildo surge:

– Como é, está aprendendo direito o que o seu chefe lhe determina?

O sorriso, a indagação em tom de gracejo, no desejo da perigosa aproximação. . . E Cláudio, sorrindo, vindo em sua defesa:

– Ela está indo bem, doutor. É inteligente e tem interesse em aprender.

– Ótimo ótimo!

Então, ainda sorrindo doutor Rildo se despede:

– Se esforce. Aprenda para o seu próprio bem.

Com as faces queimando de vergonha, ela responde, sem fitá-lo, temendo. . .

– Estou me esforçando, doutor Rildo.

Com as faces queimando de vergonha, ela responde, sem fitá-lo, temendo. . .

– Estou me esforçando, doutor Rildo.

Vai se defendendo na fingida ingenuidade de quem não conhece o lado mal da intensão oculta. Há seis meses que está trabalhando no setor-pessoal e como sua vida mudou: melhor ambiente de trabalho, melhor salário, a satisfação em se saber valorizada pelo próprio valor. . . Sim, enquanto não houver uma “reviravolta” em sua vida, é bom, muito bom se sentir como funcionária e “gente”.

Descerra os olhos e sorri, em paz com o presente.

O ônibus estaciona e saltando, entra no Bairro de Linha do Tiro. Caminha apressada.

Na mesa à calçada do bar da esquina, os homens que bebem, percebem-na.

– Lá vem a morena gostosa.

– Cara essa menina é demais!

Sabendo-se analisada, aligeira os passos fugindo, receando a “cantada”, pois bem conhece os moradores do lugar. Adianta-se. O pai estará em casa, ou fazendo algum “biscate”, defendendo-se, na busca de dinheiro? A mãe terá tomado o remédio na hora certa? O irmão brincando na calçada, com os amiguinhos? Sua família, sua razão de viver, pois apesar de tudo, sempre há o impulso, que nos faz lutar.

Adiante, a travessa e, no meio desta, a casa, sua morada e dos familiares.

– Gostosa!

Grita o motoqueiro passando em velocidade. Ela prossegue caminhando, como se não tivesse escutado a voz atrevida e grosseira.

Logo, adentra na travessa e sobe a rua ladeirada, enquanto a noite amadurece dentro do tempo.

14

Zé Rodrigues salta do ônibus e caminha na rua que o conduz a casa, na 3ª. Travessa desta. A noite ainda está nova. Os ônibus e carros passam. Pedestres movimentam-se nas calçadas. Nas casas comerciais o movimento ainda é grande (com os cartões de crédito a pobreza gasta mais) e, pensa no emprego, no grito perdido da greve, daqueles que lutaram por melhores salários, incentivados pelo sindicato, mas, é assim mesmo, as desigualdades sempre (sempre!) existirão e. . . Analisando melhor, essas desigualdades são necessárias, para o incentivo a luta. Entra na padaria à esquerda e compra o pão. Saindo, apressa-se na calçada com outros transeuntes. Este Bairro de Águas Compridas é muito povoado! Com o fracasso da greve, as demissões foram muitas e ainda continuam.

– Zé a ”cabra comeu o cartão” do Negrinho do salão.

– Pois é Isaías. Quem manda ele ficar aí agitando? Tem os “olheiros”, que tudo vêm, anotam e “entregam” os descontentes.

– Pois é.

Calaram-se. Os operários chegavam à portaria, para “carimbar” o “ponto” e enfrentar a rua, no retorno aos lares.

Eles, os “seguranças”, acompanhavam as mãos que retiravam os cartões do quadro e depois os levando ao relógio, marcavam a “saída”.

No pátio, outros trabalhadores chegavam para cumprir a obrigação que os colegas exerciam. Tudo na rotina de antes, na rotina normal.

Agora chega a casa. Cruza o jardinzinho, o terraço e adentra. Na sala, a mulher, no sofá acompanha a novela.

– Verônica tudo bem?

– Tá, tudo na santa paz. E lá, no emprego?

Ele senta-se ao seu lado e espichando as pernas longas, relaxando:

– Tudo bem. Depois da greve, tudo voltou ao normal.

– Ainda bem.

– Sim, ainda bem. Mas, vou me  “banhar”, para jantar.

Levanta-se e retira-se da sala. Acompanhando-o com os olhos ela percebe-o mais magro, envergado, os gestos mais lentos?

Na tela o casal se beija com ardor.

– Pra que tudo isso numa hora dessas?

Os atores se descolam e a história prossegue insossa, irreal. . .

– Tá muito chata essa novela!

Levanta-se, desliga o aparelho e vai cuidar de esquentar a refeição do marido.

Então, em direção a cozinha, passa pelo corredor e, no quarto ao centro deste, os olhos da idosa no leito, seguem-na.

– Verônica está mais gorda.

Diz a velha, na resignação dos enfermos. E ouve as vozes na cozinha do filho e da nora, sem entender o que dizem. Mais uma vez fecha os olhos e. . . Adormece.

15

Doutor Rildo dirige o automóvel. A noite amadurece. Saiu a pouco da residência, no Bairro do Cajueiro.

Ao sair encontrou como sempre, as residências muradas, com os portões fechados, as varandas vazias. A rua com um ou outro pedestre, na placidez aconchegante, triste. Desceu a rua. Mais uma vez saia, como se assim pudesse se libertar da mediocridade da vida que levava: a mulher rezando ou em templos, com os “irmãos. ” Ele calado, procurando se prender a televisão, sem conseguir ante a mediocridade da programação. Se soubesse usar o computador, talvez se “enganasse” com o mundo virtual. . . Mas, é assim mesmo, com a idade a gente vai se desatualizando, ficando para traz, sem nos conformar com as novidades sucessivas. Se não fossem as “paqueras”. . . Sorri prático, reentregando-se ao que o prende a vida. E a imagem da funcionária morena, esguia, de cabelos longos, chega-lhe. Aos poucos, a conquistará. Conhece-as. No princípio se precaveem, num escrúpulo natural de defesa, contudo, chega à hora na qual se deixam vencer e se tornam amantes, porque afinal, tudo e todos têm um preço! O carro descendo a rua enfrenta a Avenida Beberibe. Aqui, os pedestres são em maior número. As mesas dos bares nas calçadas estão cheias. O carro com a traseira aberta liberta o som alto, antipática da música “brega” do momento.

– Como se ouve uma porcaria dessas?

Indaga-se, irritado, Até quando a Carminha se manterá valorizando-se como mulher? É um homem vivido, prático e sabe esperar. Questão apenas de tempo. Para tudo há uma hora, o momento exato. A Marlene (a esposa) estará a essa hora no “culto”, na fuga que encontra contra a existência sem filhos, sem mais o apego ao marido, ao lar. . . Sim, as saídas da esposa são os recursos que ela encontra a mediocridade da existência burguesa.   Mas, cada um com sua “fuga”.

O carro adentra no Bairro do Arruda, vai em frente. Ao visitar o setor-pessoal Carminha mal respondia o cumprimento que lhe dava, agora, já sorri e a voz está mais firme ao lhe responder a saudação:

– Bom dia.

O sorriso de covinhas nas faces morenas, coradas, os olhos cintilantes na malícia de se saber desejada, a vaidade feminina. Carminha cederá! Tudo não passa mesmo de uma questão de tempo. É persistente em obter o que almeja. O restaurante ali, com as mesas na varanda, os automóveis paradas, o ambiente de classe alta. Umas doses para “relaxar” lhe farão bem. . .

Mal entra, o garçom se avizinha solícito:

– Uma mesa, doutor?

– Quero.

Então, após com os olhos correr o salão, o rapaz se volta:

– Tem uma no recanto.

– Serve.

Acompanha o garçom e, sentando-se à mesa:

– Um uísque. Qual o salgadinho que se tem?

– Agulhas-fritas, camarão-AO-Coco, um poeta. . .

– Traga-me o camarão, com verdura.

– Pois não.

O rapaz se retira. Doutor Rildo apóia os braços sobre a mesa e vistoria as mesas, numa discreta análise. Gente bem vestida, alegre, na descontração que a boa comida e a bebida oferecem. . . E aquela loura que o olha numa promessa?

– O uísque e o camarão.

– Tudo bem, meu jovem.

Toma a bebida. Com disfarce, a loura continua “paquerando-o”.

A noite vai alta. Na bandeja, sob o copo há o papelzinho. Curioso, doutor Rildo segurando-o, lê o que está escrito. Números de um telefone. Entende ao se saber observado por os olhos da loura, então, sorri, aquiescendo com o futuro encontro. Bebe, sentindo-se vitorioso, ganhou a noite, ou melhor, a madrugada e os prazeres que desfrutará em companhia da atraente desconhecida.

Ergue a cabeça e acena com a cabeça, confirmando o “sim” à discreta e clara proposta.

A mulher também sorri, na conivência que os atraem.

Com prazer, mastiga o crustáceo.

– O camarão está bom, doutor?

– Muito bom jovem. Traga-me outro pratinho, por favor.

– Pois não.

Na mesa à esquerda, os olhos perseguem-no. Então, numa repentina decisão, retira o celular do bolso do paletó e disca, marcando o encontro.

Pondo o celular novamente no bolso, reflete. Nada como as “facilidades” que a vida moderna nos oferece! Bebe devagar. Devagarzinho.

16

Agora que não há mais o perigo de se ver desempregado, que sua vida retornou à rotina de sempre, ele respira aliviado, com o coração apaziguado. “Carimbando” o cartão, o repões no quadro.

Atrás do birô, Zé Rodrigues com discrição, segue-lhe os gestos.

– Tudo bem, Samuel?

– Tudo. Tudo certinho.

– Graças a Deus.

Outros funcionários entram na seção e também “carimbam” os cartões, marcando a saída. Samuel passa:

– Até amanhã.

– Vai com Deus, colega.

A rua com automóveis, motos, pedestres cruzando. O abrigo com as pessoas (a maioria operários da indústria) esperando os coletivos. Ele se afasta. Ainda bem que não mais sente o receio do desemprego. Com a Rita grávida, o custo de vida alto como está ele com a idade “madura”, desatualizado em sua profissão. . . O que sofreria com a “dispensa” do desemprego? O bom da vida é que tudo nos é transitório. Sempre há um amanhã, com uma nova promessa! Entra na rua com os moradores nas calçadas, murinhos, conversando. Meninos correndo aos gritos, na brincadeira de todas as noites. Um ou outro carro passando. O rádio tocando, numa residência circunvizinha. O cão latindo. A gargalhada de deboche de alguém. Há quanto tempo presencia essa cena? Saber que um dia não mais a verá. . .

– Mas assim é a vida. Tudo se acaba.

Sim, tudo termina para que novas vidas, com novos dramas se reiniciem, na seqüência eterna sobre o comando de uma Força Maior. Dobra a esquina e sobe a rua.

Debruça no murinho enxerga a mulher, esperando-o. Ah, como é bom estar em paz com a vida, com o mundo! Apressa-se.

– Tudo bem no emprego?

– Melhor do que está é impossível!

Graceja, descontraído.

Rita sorri. Reflete: se sempre fosse assim. . .

Solidária segue os passos do marido.

Adentram no terraço. Unidos pelo silêncio da compreensão em se saber em paz com os próprios destinos. E a mão afaga o ventre, com o ser que se agita, revelando-se mais uma vez.

Caress.

17

O tempo correu. Zé Rodrigues está velho, aposentado. No terraço da casinha, fica se balançando na cadeira, com a vista nos pedestres que cruzam a rua:

– Bom dia, Seu Zé.

– Bom dia.

A voz fraca, responde. Cadencia-se. Na cozinha, a mulher, Verônica, se entretém com um afazer doméstico, sempre procurando uma ocupação.

– A gente ocupada não fica imaginando bobagens!

Ela costuma dizer, justificando-se.

Ele, Zé, limita-se a sorrir, aquiescendo.

Cochila.

A companheira adentra no terraço:

– Zé quer um copo de café? Coei inda agorinha.

Wake:

– O quê?

– Quer um cafezinho?

Indaga-lhe mais uma vez Verônica, sorrindo.

– Quero, quero.

A mulher se retira. Mais gorda, lenta, encurvada sob o peso da idade.

Na rua embaixo os veículos se cruzam, na agitação da manhã. O sol brilha com maior intensidade, no céu azul, de nuvens. Dois homens passam conversando.

– Pra mim, todos os políticos são iguais, uns conversadores.

– Mas, meu camarada, sempre há um melhorzinho.

– O que eu quero dizer. . .

Afastam-se discutindo amigavelmente. Zé segura a xícara trazida pela companheira e toma com vagar o café.

– Tá bom, Zé?

– Muito bom.

Ela recolhe a xícara e mais uma vez deixa-o consigo mesmo.

O seu filho e do Zé, o Antônio, está na moto, na ocupação de vendedor, visitando consultórios médicos, propagando os novos remédios de um importante laboratório nacional do qual é funcionário.

– É pai, dá pra ir me defendendo. Mas, desejo mais, quero ser alguém na vida.

– Você tá certo, filho. Deve lutar enquanto é moço para depois não ficar assim como o seu pai, aposentado, recebendo uma mixaria desse governo que só tem blá-blá-blá. . .

O filho sorri, entendendo-o.

– Vou à luta!

Ao lado, Verônica segue a cena e sorrindo:

– Vai filho, bom trabalho.

Então, na moto, o rapaz desce a rua. E o casal em silêncio acompanha-lhe o afastamento até Vê-lo entrar na rua embaixo e se perder, diluído na distância.

– O Antônio é um homem, Zé.

– Também acho Verônica. Um homem!

Não, ela não quer ver! Foge o rosto de lado e a outra mão trêmula, com disfarce, enxuga os olhos. . .

Verônica acende o fogão. O que é a velhice: cada um, ela e o Zé, no seu canto, entreguem às recordações. Até mesmo sentindo saudade do que sofreu! Mas, a gente tem de se resignar com tudo e, aos poucos, se vai perdendo o apego às coisas, ficando-se indiferente a tudo. . .

Mexe a panela lentamente.   Na residência vizinha, a criança chora. De outra casa, o rádio toca a música antiga que lhe causa uma “coisa”. . .

– Basta de saudade!

Protesta em desabafo. Desliga o fogão e vai saber como está o marido.

Encontra-o cochichando, ou dormindo? Respeitando-lhe o repouso, retrocede, evitando fazer barulho. Sim, Zé, durma, esqueça tudo, se esqueça meu velho!

Retorna à cozinha e mais uma vez acende o fogão.

A criança ainda chora. O rádio toca nova música e. . . a vida continua, na eterna seqüência de cena após cena, no eterno filme da humanidade.

18

Doutor Rildo está velho. Meio gordo, ficando calvo, silencioso. Quando fala, é devagar, medindo as palavras, policiando-se:

– Carminha o jantar ta pronto?

Ela sorri, entendendo-o e responde:

– Espere um pouquinho, que a Severina tá acabando de assar a carne.

– Sim, sim.

Na cadeira de balanço, ele se cadencia, já então com a atenção voltada aos edifícios defronte ou à avenida embaixo, com os veículos e pedestres no caminhar da noite nova. O vento circula, envolvendo-lhe num abraço amigo. Carminha fita-o, refletindo. Aí está o companheiro de anos. . . De antigo patrão, um dos diretores da companhia na qual ela trabalhara primeiro no salão, costurando caixas e depois, por interferência dele, no setor-pessoal e depois amante. Com o decorrer do tempo, o companheiro diário, no apartamento que lhe dera. . .

– Você quer morar neste apartamento?

Perplexa, quase chorando pela forte emoção, ante o presente, respondera-lhe:

– Quero!

Ele então sorrindo:

– Aqui, começaremos a união de marido e mulher.

Tantos anos passados! Será mesmo que viveu aquele tempo, ou tudo não passa de sua imaginação?

Sorri defendendo-se e se volta ao companheiro que, fitando-a indaga:

– Pensando em quê?

– Nada não. Nada não.

Esquiva-se, fugitiva. Sim, o mundo íntimo nunca deve ser exposto, pois, se descaracteriza ante as opiniões ou indiferença dos outros. Perde o encanto, torna-se vulgar. . .

Então Severina surge à porta que divide esta varanda com a sala vizinha:

– O jantar está na mesa.

– Sim, Severina. Já vamos.

Aí se voltando ao homem de bermuda, cabeça grisalha arriada sobre o peito, de olhos cerrados (cochilando?) inquire:

– Vamos jantar Rildo?

Este desperta ao presente:

– Vamos.

Ergue-se lento, pesado. E acompanha a mulher (mais gorda, com os cabelos grisalhos, curtos, os braços meio grossos, o caminhar vacilante) em direção à sala das refeições.

Próxima a mesa, Severina aguarda-os, séria, compenetrada em sua função de ser empregada – cozinheira.

Afastando a cadeira para trás, o casal se senta, enquanto Severina os serve, mantendo o silêncio conveniente a sua condição social.

Sem palavras, Carminha e Doutor Rildo se alimentam.

19

O seu pai, o Samuel, está hoje muito doente, na cama. Sua mãe, a Rita, engordou e com zelo, cuida do marido.

A mulher jovem dirige, indo visitá-los. Ao lado, o filho, com o rostinho encostado ao vidro descido do carro, seg

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