O Cofre

Na manhã de águas leves caminhávamos. A fina garoa alisava o mato que beirava a rua. Quiabos pendurados, folhas verdes orvalhadas, nódoas amarelas ao fundo da vegetação e um lilás acanhado compunham a paisagem que os meus olhos capturavam.

Na esperança de um apito eu olhava para trás, mas ao longe, em silêncio, a ferrovia.

Chegamos à venda. Enquanto ela pedia o querosene para o lampião e o fubá para a polenta, eu me distraía. O balcão, o rolo de fumo pendurado ao lado da réstia, as garrafas de mel, o saco de estopa repleto de batatas. . .

Certa manhã, ao pedir fiado, o vendeiro cochichou-lhe algo bem baixinho e ela saiu furiosa, ralhando e chorando ao mesmo tempo. Em casa, nada comentou para o pai sobre o atrevimento daquele homem.

Um dos meus lugares preferidos de brincadeiras era debaixo da mesa. Sem querer, sempre ouvia a conversa dos dois. Falavam coisas: às vezes ele reclamava da vida de motorneiro, uma vez ela comentou sobre uma fábrica de cigarros que estava admitindo mulheres, ele respondeu que, enquanto vivesse, mulher dele não trabalharia.

Levava-me para ver de perto o trem. Costumava sentar-se comigo à beira de um lago repleto de libélulas. Varais em ventanias, enquanto eu brincava de rios com a valeta cuja foz estava sob o tanque, sem que ela reclamasse uma vez sequer do barro nas minhas roupas. Sem saber, ofertava-me poesia.

Gostava de olhar para as suas coisas enquanto ela cochilava. A máquina de moer carne, a vassoura de piaçava, o travesseiro de macela, os dedais, a máquina de costura, o bule. Mesmo adormecida, ela estava presente em cada objeto.

Quintal rico de esconderijos e tesouros: pés de anis, de capim santo, valetas, goiabeira, tatuzinhos, teias balançando ao suave vento, latas de óleo vazias afundando no barro, pequenas pilhas de tijolos com ovinhos de aranha. Tijolos que se transformavam em bondes, em trens.

Cerca de arame farpado quase coberta pelo mato, galinhas ciscando, enorme bananeira com os corações roxos sempre úmidos de orvalho e seiva.

O apito do trem. O da fábrica. Grilos. Sapos ao final do dia. Latidos. Relinchos ao longe. A sua voz proseando com outra mulher. Sons primordiais que enfeitiçavam de vida um menino assim repleto de quintal.

A língua de estopa molhada de querosene. A luz azulada do lampião. Vaga-lumes piscando entre as folhas da bananeira. O crepitar da lenha queimando numa fogueira, lançando faíscas como luminosos anterozóides. As estrelas. Luzes primordiais que abriam-me fendas de claridade.

Certa noite aconteceu uma novidade. A voz dele se alterou profundamente. Gritou palavras que sujaram de assombro a palidez do seu rosto emudecido e cabisbaixo.

Eu, debaixo da mesa, ouvindo pela primeira vez lancinantes berros raivosos. Ele não parava mais de esbravejar, ela engolia o pranto. Na mesa, o prato de bife esperando pelo jantar, e ele xingando, falando do cofre.

Ele guardava moedas e notas no cofre. O sonho de um dia ter uma casa, a mesma que ela vivia a desenhar no papel de pão, hábito que o obrigava a dobrar e guardar a folha numa gaveta logo que chegava com o enorme filão.

Então ele descobriu.

Após encontrar a chave, que ele tão bem ocultava, ela passou a abrir o pequeno cofre de madeira e, para comprar misturas, começou a retirar um pouco do dinheiro ajuntado com tanto sacrifício.

Ele não se conformava. Lutava tanto e ela destruía o seu sonho.

MARCIANO VASQUES

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4 Resultados

  1. abril 11, 2010
  2. abril 11, 2010
  3. abril 11, 2010

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  4. abril 11, 2010

    O Cofre: Na manhã de águas leves caminhávamos. A fina garoa alisava o mato que beirava a rua. Quiabos pendurado.. https://bit.ly/d9Saww

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